Você precifica em reais, mas uma parte dos seus custos está em dólar. Esse desalinhamento silencioso tem nome — exposição cambial — e pode estar destruindo sua rentabilidade sem que os relatórios mensais deixem claro o porquê.
Você fecha uma viagem ao Japão por R$ 17.325. O custo com o DMC japonês é USD 2.100 — equivalente a R$ 10.395 no câmbio do dia, R$ 4,95. Sua margem planejada é de 40%.
O cliente paga em 8 parcelas. O embarque acontece em 90 dias.
Nesse período, o dólar sobe 5% e chega a R$ 5,19.
Seu custo com o fornecedor passou para R$ 10.899. Você não mudou nada — nem o preço, nem o serviço, nem a operação. Mas perdeu R$ 504 nessa venda. Sua margem caiu de 40% para 37,1%.
Agora multiplique isso por todas as vendas do mês.
O que é exposição cambial — na linguagem de quem opera turismo
Exposição cambial não é um problema de quem exporta. É o risco que existe quando você recebe em real e paga em dólar — e há um intervalo de tempo entre os dois momentos.
Para operadoras de turismo, esse descasamento é estrutural:
- Você precifica o pacote hoje, com o câmbio de hoje
- O cliente paga parcelado ao longo de meses
- Você paga o fornecedor internacional próximo ao embarque
- Entre esses três momentos, o câmbio pode ter se movido significativamente
Não é especulação. Nos últimos 10 anos, o dólar foi de R$ 3,05 a R$ 6,21. Em 59% dos períodos de 90 dias analisados, o câmbio subiu mais de 5%. Em 23% dos casos, subiu mais de 10%.
Isso significa que, estatisticamente, em mais da metade das suas vendas internacionais com prazo de 90 dias, o câmbio trabalhou contra a sua margem.
Como a margem é corroída na prática
O mecanismo é direto, mas os efeitos aparecem com defasagem. Você fecha maio com margem de 14% — dentro do planejado. Em junho o dólar sobe 12%. Você não mudou nada: mesma tabela, mesmos contratos, mesma operação. Em julho, a margem foi para 9%.
Nos relatórios, isso aparece como “aumento de custos”. A causa real — o câmbio — fica invisível até o trimestre já ter ido.
Para uma operadora com R$ 200k de vendas internacionais por mês e custo médio de 60% em fornecedores no exterior, uma variação de 5% no câmbio representa R$ 72.000 de impacto anual na margem. Uma variação de 10% chega a R$ 144.000/ano.
Exposição gerenciada vs. exposição ignorada
| Gerenciada | Ignorada | |
|---|---|---|
| Precificação | Com banda de proteção cambial | Baseada em câmbio estimado no dia |
| Custo do fornecedor | Travado no momento da venda | Varia até o pagamento |
| Resultado em ano de alta | Impacto limitado | Margem cai 2 a 5 p.p. sem mudança operacional |
| Planejamento | Câmbio mapeado no orçamento | Câmbio tratado como variável externa |
Entender não é virar especialista em derivativos
É ter visibilidade suficiente para tomar decisões com clareza — de precificação, de prazo de pagamento ao fornecedor, de estratégia de crescimento.
A pergunta certa não é “o dólar vai subir?”. É: “quanto da minha margem está exposta se o dólar subir 5%, 10% ou 20% — e o que posso fazer agora?”
E isso começa sempre da mesma forma: medindo o que você ainda não está medindo.
Exposição cambial não é o câmbio em si. É o quanto a variação cambial pode afetar o seu resultado — e você nem sempre sabe exatamente onde ela está escondida.
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